Fórum de Finanças Éticas e Solidárias

Reportagem audio aqui.

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A Rádio Manobras cobriu o Fórum de Finanças Éticas e Solidárias a 16 e 17 de Janeiro de 2015 no Porto: transmissão em directo, entrevistas, registos sonoros. Apresentamos a síntese da autoria de Ana Pedrosa; brevemente nesta página também o debriefing do forum na perspectiva da rádio.

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Fórum de Finanças Éticas e Solidárias

Síntese dos painéis de 17 de Janeiro de 2015

1º painel
COOPERATIVAS E FINANÇAS SOLIDÁRIAS
Nota de Abertura: Beatriz Ramirez
Fernando Martinho, UNINORTE
Alberte Román Losada, COOP 57 Galiza
Manuel Solla, COOP 560
Sofia Cardona, Cooperativa Integral Catalã
Américo Mendes, Moderador

A Rádio Manobras no 2º dia do Fórum de Finanças Éticas e Solidárias, faz o resumo do 1º painel da manhã, dedicado ao tema “COOPERATIVAS E FINANÇAS SOLIDÁRIAS”, moderado por Américo Mendes.

Este painel foi aberto por Beatriz Ramirez que referiu os muitos modos possíveis de fazer banca social, e a necessidade de os colocar em contacto entre si para que se formulem soluções à medida dos problemas da nossa realidade económica actual.

A 1ª intervenção, feita por Fernando Martinho pela União Cooperativa Polivalente da Região Norte, desafiou-nos re-equacionar o valor da troca na sua essência. O que podemos trocar e que valor lhe atribuímos? Fernando Martinho sublinhou as horas de trabalho como uma das mais fortes moedas de troca disponíveis.

De seguida foram apresentados os casos concretos de uma cooperativa portuguesa e duas espanholas, que demonstraram a renovação e crescimento actual do movimento cooperativista e a concretização prática de modelos solidários e transparentes de financiamento.

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Manuel Solla apresentou a COOP 560 – Cooperativa Multissectorial para a  Economia Social e Solidária. Esta cooperativa, fundada no ano passado, reúne através de 6 associações e 4 cooperativas aqueles que procuram libertar-se da submissão ao sistema de financiamento bancário vigente. O primeiro projecto foi a criação de Títulos de Investimento Cooperativo como instrumento de financiamento de actividades cooperativistas. Esta cooperativa é entendida como um passo para rever as relações de produção. Nas palavras de Manuel Solla, “o  próximo passo não pode ser criar uma sociedade unipessoal e limitada ou satisfazermo-nos com a participação directa na decisão de apenas de 1% do orçamento público. Há que ambicionar sermos donos do nosso destino.”

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Já a COOP 57, apresentada por Alberte Román Losada, estende-se ao território espanhol, assumindo uma escala que envolve hoje cerca de 500 entidades e 2.700 colaboradores empáticos com os princípios da economia social.
A história desta cooperativa iniciou-se na Catalunha em 1995, na sequência da luta de um grupo de trabalhadores de uma editora de banda desenhada em falência por um modelo de crescimento económico mais justo.
À medida que a cooperativa foi crescendo, foi necessário ir adequando o seu modelo de gestão criando orgãos que actuam desde o nível da proximidade local até ao da gestão territorial.
O foco principal de actividade é gerar um fundo financeiro solidário entre os seus cooperantes, que permita financiar projectos ou reverter como poupança. Hoje, a Coop 57 gere cerca de 19 milhões de euros de património próprio. E o que a diferencia da banca convencional? A Coop 57 não tem outro fim para além de ser uma ferramenta de economia solidária; os juros são decididos em assembleia geral e revistos todos os anos; em caso de incumprimento de um empréstimo a cooperativa reajusta o plano de pagamentos. De todos os modos apenas cerca de 1% dos projectos financiados pela cooperativa faliram, quando na banca este valor ronda os 6%.
Hoje é o boletim da Coop 57 que continua a contar histórias de pessoas incríveis, tal como outrora o faziam os livros de banda desenhada da editora a partir da qual nasceu esta cooperativa.

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Por último foi apresentada a recente Cooperativa Integral Catalã, pela jovem Sofia Cardona.
Com apenas 4 anos de existência esta cooperativa é já uma fonte de inspiração para cooperativas em Portugal, tal como referido noutras apresentações do Fórum.
A história desta cooperativa começa em 2008 com uma viagem de grupo em bicicleta à Catalunha. Nesta viagem, o grupo toma conhecimento de um conjunto de projectos locais assentes em princípios solidários, ecológicos e economicamente alternativos. Esta consciência evolui para a formação de uma cooperativa que pudesse estabelecer uma rede entre estes projectos já em curso.
Progressivamente esta cooperativa estendeu-se à escala do território espanhol, envolvendo agora cerca de 2000 sócios e articulando redes e sub redes de entidades afins.  Este desenho em rede reflecte-se no modelo de decisão que articula Assembleias Gerais com Assembleias itinerantes temáticas.
A actividade da cooperativa abrange um vasto leque de áreas de intervenção, desde o financiamento, sistemas de moeda social, alimentação, saúde, transporte, meios de comunicação como correios, telefone ou internet. Dos projectos apontados, suscitou curiosidade um manual para a desobediência económica, consultável em www.derechoderebelion.net.

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2º painel
INOVAÇÃO SOCIETAL E DESENVOLVIMENTO – EXPERIÊNCIAS EM PORTUGAL
João Gil Pedreira, CELTUS
Inês Besugo, BIOVILLA
António Veiga, ACAF PORTUGAL
Sara Moreira, ECOSOL
João Ferrão, Moderador

A Rádio Manobras no 2º dia do Fórum de Finanças Éticas e Solidárias, faz o resumo do
2ºpainel da manhã, dedicado ao tema “INOVAÇÃO SOCIETAL E DESENVOLVIMENTO
– EXPERIÊNCIAS EM PORTUGAL”, moderado por João Ferrão.

Iniciou João Gil Pedreira partilhando a visão da Associação CELTUS – Fraternidade e Sustentabilidade nas Relações Económicas, sediada em Lisboa. Para João Gil Pedreira está hoje instalada uma 3ª guerra mundial, invisível, entre devedores e credores. Para propor uma saída, a CELTUS tem como fins o fomento de uma banca ética e o apoio ao resgate financeiro de empresas e famílias sobre endividadas.  Para tal, iniciou um mapeamento da banca social a nível europeu, defendendo ser crucial o posicionamento como ecossistema para o sucesso deste tipo de economia. Num ecossistema as relações são mais importante do que o valor de cada entidade estanque por si só.  E, para João Gil, o maior desafio em Portugal é encontrar esta disponibilidade para investir na relação com outras entidades.

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Também António Veiga, da ACAF Portugal refere uma problemática semelhante na sua apresentação. ACAF, Associação das Comunidades Auto Financiadas, desenvolveu um método de gestão de um fundo comum que permite disponibilizar financiamento à margem da banca convencional.
Este método encontrou boa aceitação nas comunidades emigrantes com tradição em inter-apoiarem-se colectivamente. Fora deste contexto, o desafio da ACAF para a aplicação deste instrumento em Portugal, pode-se resumir ao estabelecimento de confiança, confiança e mais confiança.

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Foi também apresentada a cooperativa Biovilla pela Inês Besugo.
A iniciativa partiu de jovens finalistas que acreditavam poder “mudar o mundo”, construindo um lugar modelo de sustentabilidade ambiental, social e económica em 55 hectáres da Serra da Arrábida. A cooperativa empreende acção ambiental através da plantação de bosque e  produtos hortícolas; formação ; alojamento em modo agro-turismo; consultoria e acompanhamento de outros projectos afins.
A Biovilla situa-se numa posição intermédia entre o sistema económico convencional e projectos de maior ruptura. Assim, encontra financiamento a nível de fundos europeus, fundos especiais bancários, bem como através do que apelidaram de “títulos de investimento comunitário”, onde os investidores na biovilla encontram forma de acompanhar de perto o projecto.

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Por último, Sara Moreira fez a apresentação do recém fundado ECOSOL – Economia Social para a Cidade do Porto, com apenas um ano de existência.
O projecto iniciou-se com um conjunto de encontros itinerantes em vários locais da cidade, já dedicados a práticas comunitárias, para questionar como poderia funcionar uma rede de economia social aqui. Estes encontros de discussão, leituras e visionamento de documentários, foram contagiando outras pessoas pelo caminho.
Ao fim de 6 meses, havia já pessoas e conhecimento reunido para criar uma moeda social suportada num website. Mas, após esta etapa, tornou-se evidente que a moeda social é apenas um instrumento e não um fim, e que é necessário dinamizar a troca.
O grupo permaneceu informal, sem qualquer forma de representação organizada, mas criou uma rotina de assembleias mensais que organizam grupos de trabalho: grupo de acolhimento, grupo de consumo cultural, grupo de comunicação e grupo de economia solidária.
Revelou-se também fundamental introduzir na rede de trocas de consumo, antes de mais, bens essenciais. Neste momento a troca centra-se em alimentos transformados, mas está a ser preparado literalmente  terreno para troca de produtos hortícolas. Num 2º nível, é introduzida a oferta de bens não essenciais.
De um grupo de 15 pró-consumidores cresceu-se hoje para 30.
Como aprendizagem, extraem que “não temos de esperar por “iluminados” que nos expliquem como fazer. É fazendo que se aprende a fazer!”
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3º painel
A IMPORTÂNCIA DAS EXPERIÊNCIAS LOCAIS
Beatriz Ramirez, Fiare Banca Ética
Modesto Gonzáles , Banca Ética de Badajoz
Graça Rojão, COOLABORA
Beatriz Caitana, Moderadora

A Rádio Manobras no 2º dia do Fórum de Finanças Éticas e Solidárias, faz o resumo do 3º painel do dia, dedicado ao tema “A IMPORTÂNCIA DAS EXPERIÊNCIAS LOCAIS”, moderado por Beatriz Caitana.

A Fiare Banca Ética é apresentado por Beatriz Ramirez. Um exemplo de uma cooperativa de finanças éticas estruturada numa rede internacional partilhada entre Espanha e Itália, agregando hoje cerca de 5000 sócios.

A história da FIARE inicia-se em 2001, quando um grupo de pessoas com experiência em acção social se questiona sobre a incoerência entre as suas acções e o dinheiro que movimentavam. As acções iam num caminho e o dinheiro, noutro.
Ambicionaram então construir uma banca, em consonância com a ética das suas acções. Para começar tiveram de enfrentar a dúvida generalizada sobre se teriam as capacidades necessárias e como obteriam legitimidade para criar um banco. O desafio apresentava-se difícil, com o banco central espanhol a exigir 5 milhões de euros como capital social da cooperativa.
A Fiare iniciou então um trabalho passo a passo de agregação crescente de sócios e de recursos comprometidos com este projecto. A estratégia foi a constituir uma rede estendida ao território espanhol, a partir de entidades locais, aí reconhecidas e legitimadas. Assim, a Fiare assume diferentes rostos em cada núcleo local. Cada um destes núcleos divulgou localmente o projecto e angariou aliados.
Em 2003, a Fiare reunia já 60 entidades dispostas a investir 3.000euros a fundo perdido. Em cada um dos locais persistiu-se na captação de sócios, em que cada um teria de contribuir com 300 euros.
A Fiare manteve-se fiel a esta estratégia de captação de pequena escala até reunir os 5 milhões de euros numa sociedade limitada, da qual as associações eram os únicos donos. Por fim, em 2013, a Fiare funde a banca ética espanhola com o projecto homónimo italiano.
Este percurso, lento, poderia algures ter sido atalhado, caso aceitassem a entrada de capitial de organizações de peso. Mas a Fiare foi perseverante em garantir que que o dinheiro ficava na mão de cada sócio, assegurando assim a sua independência. Beatriz Ramirez diz: “quando queres ir rápido, vais sozinho. Quando queres ir longe, vais acompanhado. E a Fiare quis ir longe.”

A Banca Fiare distingue o seu propósito de um banco convencional pois é entendida como um instrumento de apoio a acções na sociedade, e não como um modo de reproduzir dinheiro como um fim em si mesmo. Os benefícios que resultam revertem sempre a favor do objecto que se criou suportado por este fundo.
Uma banca como instrumento de intervenção social, pressupõe que a sua ética esteja presente em toda a linha de acção: como decido? como me relaciono? como cresço? como atribuo crédito?
Beatriz Ramirez descreve este projecto como um projecto de militância económica: onde cada um assume a co-responsabilidade na decisão sobre o destino a dar ao dinheiro comum.

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Seguiu-se Modesto Gonzáles, que veio apresentar a  Banca Ética de Badajoz, uma região que descreveu como historicamente empobrecida. Modesto começa por referir que bancas éticas sempre existiram, ainda que não fosse esta a nomenclatura que as nossas avós lhes davam.
O movimento para constituir a de Badajoz também surgiu em 2001. Rapidamente, em 2004 estava já constituída uma associação, reconhecida socialmente.
Esta banca quis demarcar-se da banca convencional onde “quem é excluído do crédito é excluído dos seus direitos humanos”. Assim, também se revê como um instrumento para uma sociedade mais justa e sustentável.  Sempre que existe um caso de insucesso, em que um projecto não consegue devolver o dinheiro emprestado, encaram-no como uma oportunidade pedagógica, para reverem porque não funcionou e como poderão corrigir o erro.

A orgânica da banca de Badajoz assenta na robustez das relações interpessoais que vão estabelecendo e alargando. Emprestam dinheiro a entidades e pessoas cujas acções se revêm na ética desta banca, e cada novo projecto ou membro é introduzido por um sócio que afirma a sua confiança investindo no projecto que introduz. Reúnem pessoas com perfis muito diversos: desde o mais conservador aos mais arriscado. Mas as decisões são sempre atingidas por consenso, pelo que demoram mais tempo a avançar, mas avançam mais coesos.

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Por último, um caso português. Graça Rojão apresenta o projecto “troca a todos”, uma feira de trocas na Covilhã.
Graça refere as carências da Covilhã, onde há dificuldades em aceder a bens básicos, como habitação ou alimentação.
Em 2008, um grupo de mulheres funda a cooperativa Coolabora, movidas pela vontade de não baixar os braços perante a desolação geral de distribuição injusta de recursos. Em 2014, no âmbito de uma das suas linhas de acção, de promoção da empregabilidade, surgiu o projecto de um grupo de trocas, partindo do princípio que “ninguém é tão pobre que não possa dar alguma coisa, nem ninguém é tão rico que não necessite de nada”. O projecto reuniu desde logo as forças da Coolabora, do grupo de acção cívica “Covilhã em Transição”, da Companhia de Teatro das Beiras, de um grupo de inter-ajuda para a procura de emprego, de um grupo de empreendedoras e de pessoas desgastadas com os modelos de consumo massificados.
O grupo de trabalho foi realizando reuniões mensais  de longos, mas necessários, debates. Nesses debates, perceberam que o nome original do projecto “dar a volta à vida” era  sentido como estigmatizante por alguns. E assim, deram a volta ao nome, construindo o nome positivo “troca a todos”.
O projecto foi tomando forma. Estabeleceram parcerias como a realizada com Universidade da Beira Interior, em que os alunos do curso de comunicação e design empenharam o seu saber na divulgação dos artigos desta feira atípica.
E em Junho realizaram com sucesso a primeira feira, com a activação de uma moeda social − o tear − e reunindo um grupo de 35 pró-consumidores.
Mas este grupo não quer ser apenas uma feira. Tem a ambição maior que esta feira seja um contexto, e pretexto, para alimentar relações de solidariedade. Graça ilustra esta intenção com a imagem de um encontro inesperado que se deu numa destas feiras entre um marinheiro estrangeiro da greenpeace, uma recém licenciada regressada à província e uma jovem que enveredou pela agricultura.
Será demasiado utópica esta ambição? Para Graça, estes gestos, à escala de cada um e de cada lugar, abrem brechas num sistema que se apresenta hoje monolítico e que afirma que não há alternativas.

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Síntese dos princípios comuns aos 3 painéis

A Rádio Manobras no 2º dia do Fórum de Finanças Éticas e Solidárias, após os três painéis de apresentação de casos locais e internacionais de cooperativas, associações e grupos empenhados em projectos de bancas ou grupos de troca éticos e solidários, faz uma leitura de quais as valores mais afirmados por estes movimentos.

Para começar, estas finanças definem-se como éticas e solidárias por oposição à banca convencional, que é tida então como esvaziada de ética e de solidariedade.
Uma banca ética, porque se entende como um instrumento ao serviço da intervenção na sociedade e não como máquina de replicação de dinheiro como um fim em si mesmo.

E esta intervenção na sociedade, implica uma ideia sobre que sociedade se deseja. Uma sociedade que distribui os seus recursos e as suas dificuldades de modo mais equitativo e é, portanto, mais justa. E assim esta banca afirma-se como: solidária. Casos de insucesso são exemplos pedagógicos de aprendizagem: os erros são assumidos por todas as partes que investem.

Esta banca afirma-se como: transparente, o que significa disponibilizar acesso à informação mas também inteligibilidade do que se faz com o dinheiro, por contraposição às movimentações embrenhadas e fora do controlo dos depositantes da banca convencional. Esta compreensão de como se move e como se investe o dinheiro comum, é condição para a co-responsabilização de todos os intervenientes.

E, assim esta banca afirma-se como: democrática, uma vez que o poder de decisão está distribuído entre todos os sócios. Para manter o debate em todas as escalas, estas estruturas promovem fóruns e instrumentos que actuem ao nível do local e do território nacional e internacional. Esta organização interna é transporta também para a relação de cada estrutura com outras afins.

Assim, esta banca, defende o funcionamento em: rede, cooperando com outras bancas éticas ou outras instituições empenhadas no bem comum. Este funcionamento parece ser crucial para a solidez destes projectos.

Esta é assim uma banca assente numa teia de relações a multi-escalas, que só podem ser tecidas com o tempo, devido, de um processo. Todos estes projectos explicam a sua força, desfiando a história de seu processo lento de crescimento.  É no seu percurso prático de confronto de uma ideia com as vississitudes da realidade, que vão construindo o sentido desta comunidade viva, em que os seus valores vão sendo desafiados, questionados, reposicionados e entranhados.